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sábado, 9 de julho de 2011

Sobre os pés

   Os pés há tantos anos suportaram nosso peso, levando-nos de lá para cá, mexendo-se quando estávamos impacientes, repousando por um breve período na noite de descanso e, ainda lá, esticando-se e esfregando-se, quando não se chocavam com os reflexos de nossos pesadelos. Chegou o dia em que se rebelaram, gritaram primeiro para que o tornozelo os ouvisse, posteriormente as pernas, até que a notícia fosse repassada à cabeça, “demitimo-nos”. Neste dia, grande parte dos homens deixou de ir trabalhar, ligaram aos seus escritórios e disseram “não iremos hoje, pois nossos pés nos abandonaram” ou então aos médicos, “doutor, não posso andar”. A estes foi destinado a morbidez e o repouso, dedicarão à leitura e a escrita.
   Os mais agitados, no entanto, sendo os de maior velocidade tanto no correr quanto no pensar, logo criaram novos meios de se locomover. Os primeiros tentaram usar o fígado, mas este já suporta tantas funções metabolizadoras que poucas forças sobraram para desempenhar o papel de locomotor. O outro, achando-se por esperto, mas não sendo mais do que o próximo a quem descreveremos, selecionou um de seus rins para a tarefa, “tenho dois, um cumpre sua obrigação interna, o outro me ajuda no trânsito”, mas este logo desistiu, pois o rim, acostumado a filtrar toda matéria de sujeira, estando fora do corpo, fez o papel inverso, consumindo a poeira e a sujeira do chão e transitando-a para o interior do corpo, fazendo com que o rim interno tivesse de duplicar seu trabalho na hora de filtrar, agora não só a excreção e secreção interna, mas também a poluição externa que o seu irmão gêmeo trazia. Por algum tempo ele ainda suportou, até que este indivíduo caminhou por um pequeno atalho de pedras, estas o rim locomotor também as absorveu e logo se invalidou; o paciente questionou “mas por que ele parou, doutor?”, ao que este respondeu “pedra no rim”.
   Ao verdadeiro esperto, tão ágil na época em que os pés ainda se movimentavam, veio-lhe a ideia, inspirada pelos conhecidos que fracassaram ao usar dos demais órgãos para substituir os pés. Decidiu então por transformar a apêndice, esta que de nada serve ao corpo senão para a apendicite, e ordenou a ela, “locomova-me”. E assim funcionou bem, sem os problemas internos da já comentada apendicite, e exercendo bem sua nova função.
   No começo, a apêndice criou algumas dificuldades, talvez pelas gerações em que passara ociosa, sem funcionalidade alguma, e por esse motivo tenha ela também, às vezes, se rebelado ao restante do corpo e matado alguns tantos indivíduos por sua doença particular. Mas aos poucos ela esquentou suas células e criou alguns músculos, tornou-se mais resistente, logo já podia correr. Sua elasticidade a fez moldar-se de forma apropriada para o caminhar, o homem já não sentia mais falta de seus vaidosos pés; a humilde apêndice tornou-se cômoda até mesmo para os antigos sapatos e chinelos que seus senhores ainda estocavam nos armários.
   A novidade foi tão bem recebida que decidiram por renomear o órgão, agora já tão irreconhecível como apêndice e este nome já não lhe serviria mais, afinal de contas as apêndices dos livros deixariam de ser apêndices, pois o significado delas mudaria logo se ao órgão não fosse dado um novo nome.  Chamaram de “andador” por algum tempo, depois “caminhante”, mas estes apelidos de nada pareciam com um membro do corpo. Por ele pisar tão bem, chamaram de “pisante”, mas soava de forma terrível, “pedante” já possuía um significado muito egoísta, semelhante ao caráter dos rebeldes pés; e falando nos pés, estes desapareceram, nunca mais foram vistos e sua feição já era esquecida, seriam eles parecidos com os “pisantes”? Alguns saudosistas clamavam poemas sobre eles, os mais ricos fizeram filmes, os franceses elaboraram um documentário. A memória dos pés, por mais desacostumados que estavam as pessoas deles, foi reavivada. Em sua homenagem, decidiram os cientistas chamarem o novo órgão, antes conhecido por apêndice, de “pé”, para que este ganhasse um nome e aquele nunca fosse esquecido.
   Aconteceu que, após vários anos, a descrição dos dois foi confundida e sua história misturada, um se tornou o outro e os dois numa coisa só e o que fez o homem andar foram apenas os pés. Quanto aos antigos, aqueles que abandonaram seus cargos de tanta canseira, acredita-se que se disfarçaram entre os outros órgãos e, para que descansassem de suas décadas de serviço, assumiram a forma de apêndice, para que nenhuma função fossem obrigados a fazer. Ainda hoje alguns deles, revivendo as lembranças de sua escravidão, decidem-se por se vingar dos homens, e os atacam com apendicites.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Madeira conta algo

   Teve esse caso no pub. Nunca fui de frequentar este tipo de lugar, sempre dei preferência aos restaurantes e fast foods, algo mais rápido e movimentado onde eu pudesse gastar uma hora inteira conversando com uma garota e apontando características peculiares das pessoas que entravam; nada de bares caros em ambientes fechados e música quase ao mesmo nível da nossa conversa, pouca luminosidade, bandas da casa extravagantes. Mas a garota me chamou, disse que sabia de um lugar bacana, alguns cantores conhecidos passaram por lá, o ambiente era legal e eles serviam bandejas de nachos sensacionais. Não foi tão ruim, a comida era boa e a banda da noite não pôde tocar, ou seja, só tinha aquela música ambiente comum. A noite foi normal, nada que mereça ser lembrado, ou é o que dizemos quando não queremos comentar a quantidade de assuntos que pode acontecer entre um casal em um lugar público. Mas tinha um cara bêbado, quase ao ponto de cair, perto do balcão do bar, falando sozinho e muito alto. Chamou a atenção do pessoal por lá e foi só isso, logo ele saiu escorado em um amigo e partiu para sabe-se lá onde.
   Aí fiquei pensando, “o que passava na cabeça desse rapaz?”. Era um lugar caro, um ambiente de pessoas que supostamente têm algum conhecimento, apreciam música e filmes, tocam algum instrumento. Por que gastar tanto dinheiro nessa inutilidade e perder a oportunidade de ter uma conversa com alguma moça bonita ou um novo escritor? Não teria ele casa para desmaiar por lá? Eu falei para a garota que me acompanhava, “Você beberia desse jeito, digo, pra ser notada pelos outros e carregada por um conhecido pra casa?”. Certas perguntas se fazem inúteis, a gente só diz para iniciar uma discussão ou algo do tipo, não espera realmente uma resposta complexa, talvez esteja, como nesse caso, preparado para uma risada e uma negação simples e a partir de então começar a caçoar do indivíduo e relembrar casos semelhantes ocorridos com alguém. Eu nunca tinha saído com a tal moça antes, não podia saber o que ela fazia da vida e o que quer que tenha passado! Conversamos durante toda a degustação dos nachos sobre bandas de folk e rock, comentamos algo sobre literatura, mas nos concentramos mesmo em cinema e sobre as expectativas da próxima temporada de filmes hollywoodianos. Eu não sabia simplesmente nada da vida desta tal, que não convém dar, como se diz, nome aos bois, caso ela ou algum conhecido seu venha a ler esta página. Não que ela não saberá que falo dela, pois isso é impossível; obviamente ela associará o lugar e o caso a mim e isso será inevitável, mas dessa forma posso poupá-la de algum constrangimento.
   Foi uma pergunta simples, como disse; não queria uma resposta real, apenas um comentário. Ela olhou bem firme nos meus olhos, as sobrancelhas tão cravadas no rosto que pareciam que iriam se chocar acima do nariz, tornou o rosto ao chão e com a feição fechada disse de uma forma arrastada “saí da clínica de reabilitação há pouco tempo. Tenho passado esses dias todos pensando justamente se eu conseguiria aguentar ficar sem beber daquela forma novamente”.
   Não creio ser necessário acrescentar aqui que foi a última vez que saí com ela, talvez pelo rancor que ela tenha adquirido de mim; mais provável pela minha vergonha de olhar para ela novamente.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Madeira diz algo

   Nunca fui de frequentar médicos, como a maior parte dos outros homens; talvez três quintos dos leitores me entendam, afinal de contas eles só nos darão receitas caras que farão a mesma coisa que o tempo fará se deixarmos ele, o tempo, trabalhar um pouco. Evitar exercícios exagerados, friagem, esse tipo de coisa; é uma boa desculpa pra passar tempo em casa lendo um livro ao invés de ter de ir àquela festa em família tediosa que sua sogra planejou. Se nem aos que cuidam do físico eu vou, quanto mais aos da saúde mental, destes que tenho fugido ultimamente. Meu chefe me deu algo que ele chamou de “boa indicação, sem arrependimentos” para me ajudar nos problemas que estava enfrentando em casa, ainda não sei por que fui desabafar logo com o meu empregador. Ele deveria ter se arrependido da mera hipótese de me indicar um psicólogo, não obrigado, ele não resolveria meus problemas. O doutor, no caso da indicação uma doutora, jamais iria entender o que se passa e nunca poderia resolver meu problema, até porque eu era o problema da família e com certeza não iria dizer isso a ela. Se eu não podia nem sequer dizer que eu era o causador de grande parte das discussões familiares, como ela poderia receitar uma solução para o caso? Dispensei no mesmo minuto, não em voz audível, não queria desprezar meu chefe, mas em minha mente Madeira já gritava “cala a boca seu babaca, eu pareço ter cara de que frequento o psicólogo? De onde você tirou essa ideia? Eu só estava tentando criar um assunto, desabafar ou algo assim, não quero que você seja o meu conselheiro pessoal! Eu sei, eu comecei, mas foi um erro, tá legal? Pode parar de falar agora!” e eu realmente acreditava que ele iria perceber as más vibrações que desejavam tapar a boca dele, mas não aconteceu. Eu só ouvi, sorri, agradeci e descartei o papel assim que ele saiu do meu campo de visão.
   Mas havia algo errado em mim, eu tinha noção disso! Acho que foi algum cliente, talvez a benévola vizinha que sempre andava com um vaso novo de plantas nas mãos, aqueles vasinhos pequenos que se podem colocar em cima da geladeira, na verdade eles encaixam em qualquer buraco da casa e por isso nunca há limites para sua aquisição. Enfim, voltando ao conselho, alguém me disse para eu procurar por uma palestra espírita em algum centro. Fui mesmo. Fiquei sentado, é bom ressaltar isso, impacientemente por todos os trinta minutos de conversação etérea que emanava da voz do orador. Obviamente ele não falava pelas cordas vocais, era certo que a alma dele é quem emitia os sons, calmo como a corrente da água, irritante como uma goteira ao lado da cama. Acho que vocês já perceberam que eu sou dado a falas longas e rápidas, não é proposital, fui criado na capital, obrigado a dar indicações de ruas tão rápido quanto a duração do sinal vermelho, não consigo me manter concentrado em diálogos que usam entonações tão longas quanto as avenidas paulistas. Já me disseram que eu daria melhor com os pentecostais, mas prefiro as falas rápidas e com variações de ideias, não costumo repetir sinônimos durante quinze frases seguidas. Quanto a palestra espírita, depois de tentar dormir por três vezes e ser sempre acordado com uma cinquentona que insiste em concordar com o preletor, como se a palestra dele ficasse mais verossímil com suas acentuações de “é assim mesmo” ou “acontece comigo sempre”, tomei por passatempo contar as vezes em que o uso de “nós” e suas variações foram empregadas. Confesso que perdi a conta, mas me ajudou a ouvir alguma coisa do que ele dizia caso alguém perguntasse depois. “Nós devemos”, “nós podemos”, “nós somos”, “nossos antepassados”, “nossa alma”, “nosso corpo”, “nosso mundo”, “nossa geração”, “nossos filhos”. Não sabia se a raça humana fazia parte de uma única entidade invisível e cada um de nós era somente uma de suas facetas, que no caso eu seria a do cético impaciente, ou se aquelas pessoas eram na verdade uma raça alienígena que compartilhava de um único cérebro, movendo todos os corpos numa conspiração hollywoodiana, tantos “nós” fui capaz de ouvir. Fiz uma anotação mental para as frases “somos pessoas de bem” e “somos seres com tendência ao mal”, deixei para analisar depois, mas acabei me esquecendo.
   Enfim, perceberam que não funcionou, certo? Até mesmo eu tinha esperanças, em algum lugar do meu ceticismo matemático, de que haveria algo ali que me ajudasse. Talvez houvesse, mas minha freneticidade não me ajudou muito.  O que posso dizer? Sou apolítico, metropolitano, viciado em café! Tento fazer com que as pessoas a minha volta entendam exatamente toda a minha linha de pensamento antes que possa dizer a minha conclusão. Por exemplo, agora, neste pequeno relato pessoal. Eu pensei primeiro “seria legal mostrar a estes expectadores aleatórios sobre essa coisa de conselhos que não dão certo”. E feito está, três parágrafos insuportáveis de frases destoantes que a maioria de vocês nem chegará a terminar de ler.
   Onde será que deixei aquele papel com o telefone de uma psicóloga, viu? Parece que a indicação era boa.

sábado, 7 de maio de 2011

Programas

   O rapaz calçou os chinelos e em um movimento veloz estalou o pescoço. As pontas dos dedos alçaram ao teto, tencionando os braços, esquentando os músculos contra a rigidez matinal. Escolheu na estante um disco, não de sons estridentes, mas que contivesse um certo tom de alegria e agitação, algo para acordar. O ribombar das primeiras pancadas da bateria, seguido de acordes ainda distantes da guitarra elétrica, equalizaram o cérebro do jovem em uma frequência mais ativa. Os cereais flutuaram no pote de leite. Embora o meio-dia avistasse seu ápice, o ainda jovial ser humano tinha a sensação de ter recém saído da noite. Preocupava lhe somente o horário do desejado programa televisivo. Estirou-se sob o sofá, o pote de cereais úmidos ao leite ainda em suas mãos; o controle remoto ativou um misturador de realidades. O televisor rugiu de forma incompreensiva por um milésimo de segundo até ser possível definir os primeiros sons.
   O jornal de intervalo periódico exibiu a chamada inicial, dando continuidade os resumos informativos.
   Um bebê na Rússia, de cujo a pele das pernas sobressaíam trechos do alcorão todas as sextas-feiras, estava recebendo milhares de visitas diárias de fiéis islâmicos, creditando-o como mensageiro divino da paz; debates de caráter liberal, referente a relações homoafetivas, espalhavam-se por todo o país; problemas econômicos no leste europeu, reflexo das adversidades climáticas que assolaram a sociedade rural local; contradições no anúncio da morte de terrorista procurado há anos; guerra civil provoca imigração em massa para país vizinho, tumultuando o governo quanto aos problemas ocasionados por esse êxodo; atriz americana encontrada morta em hotel, provavelmente vítima de suicídio.
   O rapaz ainda mastigava o cereal já amolecido pelo líquido. O polegar toca determinado comando do controle remoto e logo sua visão é fustigada por uma imagem completamente distinta da anterior, uma jovem anunciando a apresentação de mais um episódio da série infantil animada recém-estreada. O dedo toca novamente o controle. Publicidade referente a uma enorme rede de loja de móveis e eletrodomésticos. Novamente o polegar se movimenta, e relaxa ao pousar o controle remoto junto a si no estofado. Acabara de iniciar a série juvenil, repleta de efeitos especiais e personagens estereotipados. Temia ele pelo fim que o roteiro daria ao seu personagem predileto.
   Quanto ao bebê russo, os debates de teor sexual, a economia europeia, o fim de um terrorista, o recebimento de imigrantes, o suicídio da atriz, tudo isto era episódio repetido e que provavelmente seria reprisado na próxima temporada. Onde ele havia deixado mesmo o controle? O som ainda não estava numa altura de provocar emoções.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Grande Insanatório

Involuntariamente, Damião Castro, outrora homem de bons princípios, se descobre insano, não um inválido candidato à vaga manicomial, porque destes há pouco a se falar além de que são perigosos e incapazes de controlar suas absurdas ações, mas sim o do pior tipo, que tem consciência de que perdeu a sanidade. Não soube, a princípio, a quem atribuir o juízo que o fê-lo saber de sua loucura, passando muito tempo a estudar os últimos meses de sua vida à procura de indícios decadenciais; acabou por creditar à peculiar inteligência que possuía, sempre atento ao meio em que vivia, este mesmo meio da qual ele concluiu ser o responsável pela sua doença mental.

Perante a descoberta de uma doença gravíssima, o desafortunado deve optar por algumas ações primordiais, que serão cruciais para o desenlace de sua vida, agora convivida com um mal provavelmente vitalício, seu mais fiel companheiro, que não o viu nascer, mas provavelmente estará junto a si no leito de morte; a primeira delas é a quem contar, ou se contar, de sua situação; a esposa deve ou não saber, sua mãe há de chorar ou se fará forte para consolar-te, deve ser consultado primeiramente um médico, no caso de ter descoberto a doença por conta própria, como é raro, mas é esta a situação, ou o amigo que compartilhou sua infância e compareceu ao seu casamento, ou talvez a ninguém, basta a si próprio para quem o conhecimento da fatalidade já machuca, para que ferir aos seus queridos? O dilema tomou todo o dia de Damião. A segunda-feira começara com mais agouros ruins do que normalmente se começa, e ao recém-insano não cabia a opção de faltar ao serviço, tanto mais que em breve perderia o emprego, quando se fizesse saber o patrão do caso, melhor seria raciocinar durante todo aquele dia antes de tomar alguma decisão duradoura. Como de costume, não acordou a senhora Castro, mulher madura, e resguardou o beijo matinal, para que não a acordasse, embora ela nunca despertasse com o delicado beijo do esposo, apenas sentia-o em seus sonhos e alegrava-se por saber que ainda a amava o marido; levantou silenciosamente, trocou-se e partiu ao trabalho sem fazer qualquer ruído desnecessário. Como consultor empresarial de uma lucrativa empresa de estofarias, pôde ele trancar-se em seu escritório, aparentando ocupadíssimo, e tirar o dia para reflexões. Três telefonemas interromperam sua meditação, mas ainda assim foi capaz de formular algum caminho a que seguir mediante sua situação. Não contaria, por esta semana, a ninguém do ocorrido, nem mesmo a senhora Castro, procuraria primeiro estudar quais as alterações que sua deficiência viria a lhe causar em sua rotina; devemos saber em que nos afeta o mau para só depois adequarmos, sendo esta a melhor maneira de saber se ainda é possível vivermos uma vida normal. Separou um pequeno caderno de anotações, recém-fornecido pela empresa, com apenas duas páginas utilizadas, rasgou-as e deitou o bloco em sua escrivaninha; nele escreveria as ponderações diárias e observações quanto às deformações que lhe haveriam de aparecer.

Sabe-se que está louco quando tudo a sua volta parece-lhe insano; Damião dera à consequência o cargo de causa.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O Oitavo Filho - Parte 5 (FINAL)

   O pastor da congregação local mudara-se para a cidade por volta de dois meses atrás, fundando o primeiro templo protestante do lugar. Atendia aos poucos fiéis que conseguira converter e não dava muita atenção para os boatos supersticiosos dos moradores. Sabia que era coisa típica do povo rural.
   Mesmo após toda a confusão ele não deixara sua convicção de que a confusão do lobisomem não tinha passado de um mal entendido.
   Sabia ele também que, mesmo em meio ao caos, o Senhor faz coisas bonitas com seus filhos. Na peregrinação para fora da cidade, da qual o pastor foi acompanhado por sua família e pelos fiéis da congregação, ele encontrou uma criança que corria sozinha, sem pais ou amigos.
   Chamou-o, comovido pela solidão da criança e, agachando para falar-lhe, perguntou seu nome.
   - João, senhor. – O garoto respondeu de forma rápida e tímida.
   - Onde estão seus pais, João?
   - Não sei não, senhor. Não os vejo desde quando começamos a correr, ontem à noite. Acho que eles foram para longe de mim, senhor. Nunca me quiseram, acredito eu.
   - Ora, não fale uma coisa destas! Eles devem te amar muito e estão, neste exato momento, preocupados com você.
   - Não estão não, senhor. Eles me trancavam todos os dias no porão e evitavam dar para mim as mesmas comidas gostosas que davam às minhas irmãs. Na verdade, eu estava preso até ontem e consegui escapar sem que me vissem.
   Os olhos do pastor se encheram de lágrimas. Agradeceu a Deus por ter colocado exatamente ele, seu servo, no caminho daquela pobre criança. Convidou-o para ficar com ele, oferecendo-lhe cuidados e comida necessária.
   João agradeceu e o acompanhou por todo o caminho, sendo sempre tratado e protegido, tanto pelo pastor, quanto por sua esposa. Descobriu como era gostoso brincar, e passava o dia durante a jornada se divertindo com os filhos do gentil casal.
   Chegaram, após quatro dias de caminhada, em uma cidade mais habitada do que a morada anterior; município não tão rural e com muitas lojinhas e casas grudadas umas nas outras.
   Hospedaram-se na casa de um antigo conhecido do pastor, ovelha sua em outras épocas, e, pelo que João ouvira, ficariam por lá alguns dias.
   No primeiro jantar que tiveram, reunidos junto à mesa, a esposa do pastor e a dona da casa prepararam uma deliciosa carne bovina, muito cheirosa e decorada. Ao dispô-la sobre o tampo, os olhos de João brilharam. O cheiro, desde quando a preparavam, fez com que ele tivesse desejos de devorar aquele alimento incessantemente.
   A criança abandonada não piscava um segundo sequer, fitando o pedaço de boi posto ao seu alcance. Ele salivava e a baba escorria pelos cantos da boca. Suas mãos tremiam. Finalmente sentiria o sabor daquela carne tão almejada.
   Na verdade, ele já deduzira o sabor em sua mente. Seu desejo era incontrolável. Se demorassem mais um minuto para servir sua fatia, ele pularia por sobre a mesa e abocanharia ali mesmo sua refeição.
   Seus desejos eram animalescos. Talvez pelo anseio de apreciar um alimento da qual fora privado por toda sua vida; talvez o motivo fosse muito mais sombrio.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O Oitavo Filho - Parte 4

   A festa junina local era tão movimentada que as guloseimas eram preparadas na hora para atender aos festejadores. O churrasco, atração principal, levantava colunas de fumaça por toda a redondeza.
   João tinha, sim, um sono profundo, mas todos os anos, na noite de festa junina, era acordado por aquele cheiro tão distinto de carne. Pela vontade de apreciar aquela comida, ele sempre se levantava e ficava o mais próximo da janela, posta tão alta, para sentir o delicioso cheiro do churrasco. Sentia vontade incontrolável de ser uma criança normal e poder brincar e comer junto dos outros.
   Sentou na escada do porão e começou a chorar. Após alguns minutos do pueril pranto, ele levantou a cabeça e notou que a janela pela qual ventilava o ar do porão, a que dava para os fundos da casa, ficou aberta. Pelo costume do cativeiro, não havia percebido brecha tão grande! Sua chance de saber como eram os festejos e a comida de sua gente finalmente chegou!
   Empilhou algumas caixas e brinquedos por cima da cama, que fora arrastada até embaixo da janela. Escalou tudo com dificuldade e esgueirou-se em liberdade para fora da casa. Respirou profundamente o ar fresco noturno e apreciou a formosa lua, vigorosa em sua fase cheia.
   Correu a seguir em direção à praça, sempre guiado pelo saboroso cheiro de carne.
   Chegando ao centro da cidade, admirado em ver tanta gente em um único lugar (lembrava de ter visto muita gente reunida ao seu lado somente quando alguns parentes de sua mãe vieram visitá-la, anos antes), infiltrou-se em meio à multidão e pegou a fila para provar a comida proibida.
   Na sua vez, o churrasqueiro questionou:
   - Bem passada ou mal passada?
   Apontou, sem pronunciar qualquer palavra, para um espetinho de carne extremamente mal passado, com coloração muito avermelhada. Aquele pedaço atraíra sua atenção mais do que as cores escuras das carnes tostadas. Ao descobrir comida nova, sempre tendemos às aparências.
   Pegou o espetinho na mão e, assim que saiu da fila, abocanhou o maior pedaço que pode, fazendo escorrer sangue por todo o seu queixo. Mas, pelo estado, era extremamente difícil arrancar um pedaço daquela carne semi-crua; seus caninos lixados também não ajudavam.
   Ficou ali, naquele quadro: a boca coberta de sangue e os olhos esbugalhados, sem saber direito o que fazer. Foi nesta hora que dona Maria, ao lado da sexta filha, viu seu filho em meio à festa como a quem vê um morto vivo. Sua cabeça foi alardeada com pensamentos sobre a força brutal que se apossara da criança, fazendo com que ele estourasse as portas e trancas a procura de carne fresca.
   Fez a única coisa que lhe era cabível. Gritou, e gritou como só as mulheres sabem fazer, de modo que a música foi cortada e todos os rostos se voltaram em sua direção.
   - O lobisomem! Ele se transformou no lobisomem!
   E gritou mais ainda, correndo como se o diabo tivesse vindo buscá-la. O pânico dormente em todos acordou disposto. A lenda do menino-lobo que nascera entre eles era famosa. Saber que ele havia finalmente se transformado e estava ali, atacando alguém, causou caos.
   A pequena cidade mineira entendeu o significado da expressão “foi um Deus nos acuda”. As pessoas corriam para todas as direções. Atropelavam tudo o que estava no caminho. Churrasqueira tombou e ateou fogo. Idosa caiu enfartada. Pai de família carregava cinco crianças ao mesmo tempo. Todo mundo se desesperou, inclusive João que, não entendendo muito bem os motivos, começou a correr. E havia alguém de desconfiar do pequeno garoto, de cabelos bem feitos e roupas simples?
   Os mais corajosos correram para pegar uma espingarda e miravam no que podiam, querendo mostrar que enfrentariam a fera, custe o que custar. Mataram, por engano, alguns cachorros na empreita, o que só serviu para assustar ainda mais os desesperados.
   Começaram a dizer que já tinham atirado dez balas na criatura e ela não caia. Foi aí que até os bravos heróis desistiram das armas e correram para proteger suas famílias. Na confusão, até padre Tinho fez uma reza e fugiu. A cidade ficou vazia.
   O lugar ficou taxado de amaldiçoado e poucos voltaram para pegar algum pertence. O medo de o lobisomem atacar, mesmo de dia, manteve as pessoas afastadas o mais longe possível da cidadezinha. Foi o maior êxodo que se ouvira falar em todo o interior de Minas. Cada um pra um lado, procurando qualquer local onde tivessem um conhecido que os poderia receber.

O Oitavo Filho - Parte 3

   E mulher não era, como viriam a descobrir – constatar, seria mais adequado, pois a certeza de que a maldição os abateria era aguça – segundo o pronunciamento das parteiras.
    A cria masculina única de Onofre e Maria nasceu e cresceu sobre os olhos cautelosos dos pais. Desde o dia do parto, quando o médico levou junto à face da mãe o pequenino bebê, dona Maria, já não tão nova, espantara-se com a fisionomia da criança; saudável e corada, portava um par de orelhas levemente pontiagudas, o suficiente para alimentar a superstição fanática dos progenitores.
   Foi nomeado de João, nome simples e destoante da prole particularmente feminina da família. João possuía cabelos espessos muito negros, que cresciam aceleradamente. Seus caninos, mesmo os de leite, ao despontarem pela primeira vez, já eram pontiagudos.
   Com o passar do tempo, a criança foi se desenvolvendo e os cuidados na casa redobrados. Dona Maria notou logo como cresciam escuros os pêlos dos braços e pernas do filho. Ela temia as fofocas da vizinhança. Pior que lobisomem, sabemos todos, uma fofoca pode acabar com muitas vidas mais.
   Em cidade pequena, falar de vizinhança é quase a mesma coisa que falar de toda a população. Ou seja, todo o perímetro do pequeno conjunto habitacional mineiro já sabia dos boatos do filho de Onofre e Maria: oitavo filho, amaldiçoado, que Deus salve seus servos! Lobisomem particular agora tinham.
   Para evitar mais falatório e poupar, o pouco que seja, as desgraças de sua família, o casal passou a manter o filho dentro de casa o dia todo. Não iria para a escola e não brincaria na rua. Como medida contra os amigos do casal que visitavam a casa, adotaram o costume de fazer as unhas e cortar os cabelos e os pelos de João diariamente. Quando podiam, lixavam os caninos do pobre garoto.
   Privaram-no também das delícias da carne vermelha, da branca, bem como toda sorte de alimentos que viesse de ser vivo. Vegetariano vigiado dia e noite. Dieta segura propiciada por dona Maria. O garoto não sentiria o sabor de um ser que já foi vivo, fariam de tudo para evitar que João despertasse seus instintos selvagens.
   Tomaram para si um estilo de vida desesperador, como se o próprio demônio morasse junto deles. Trancavam o filho no quarto, situado no porão da casa, precavendo-se de passeios noturnos sobre o luar; luar este que João foi impedido de presenciar desde o dia em que nasceu.
   Doze anos e meio transcorreram dessa rotina fóbica e o derradeiro desfecho já despontava. A maldição, toda a família sabia de cor, mesmo as três filhas que já haviam casado e a primogênita, que fugira com um rapaz há quatro anos, destinava o oitavo filho homem a completar sua transformação licantrópica na primeira sexta-feira de lua cheia que viesse após o décimo terceiro aniversário. A contagem regressiva começou.
   Dona Maria e senhor Onofre apelaram para todas as artimanhas possíveis. Reconsultaram o padre; procuraram o pastor da nova congregação, que viera para a cidade há pouco tempo; aconselharam-se com os idosos; pagaram visita aos ciganos. Mas pouco, ou nada, dava a eles esperança de se safarem do mórbido destino. A cidadela não via o menino jaziam alguns anos, mas todos sabiam de sua presença.
   Por passar tanto tempo em oculto, porém, a idade certa de João foi esquecida pelos moradores locais, de forma que não se encontravam tão apreensivos quanto os pais do amaldiçoado. Faltava somente uma semana para a noite da transformação, mas a população estava mais entretida em preparar-se para receber a festa junina local, principal evento anual.
   Na sexta-feira todos desceram para a praça central, decorada com apetrechos típicos e com barracas de comida dispostas por todos os lados. As filhas do senhor Onofre desejavam mais do que tudo ir festejar, mas, pela distancia percorrida da casa, em meio à pequena fazenda, até o centro da cidade, não poderiam ir sozinhas.
   Ora, se João não visse o luar, nada aconteceria e, afinal de contas, o garoto estava muito fraco com sua precária alimentação. Ele era extremamente quieto e nunca, em todos esses anos, tentara sair de seu quarto durante a noite. O casal certificou-se de que João havia adormecido e pediram às filhas que se certificassem de que todas as janelas e portas estavam trancadas. Obviamente que, na euforia de partir logo, a filha mais nova não constatou a janela do porão aberta, e assim ela ficou.
   Partiram então; as filhas despreocupadas, os pais apreensivos.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O Oitavo Filho - Parte 2

   Como gente da roça, senhor Onofre e senhora Maria eram extremamente supersticiosos. Durante todos estes anos fizeram mandingas para que a barriga da mulher trouxesse à luz um filho homem, que honrasse o trabalho do pai. Mas nada funcionara.
   Ao nascer da sétima filha, o primeiro pensamento que tiveram era de que eles foram destinados a comandar aquele harém caseiro e nunca Deus lhes daria um varão para ajudá-los nesta empreita. Porém, passados alguns meses do cansaço devido aos cuidados da recém-nascida, um pensamento temeroso despontou nos dois.
   Supersticiosos, como já citei, lembraram de uma lenda muito difundida. Comentaram a história vez ou outra na quarta, quinta ou sexta vez em que Maria ficou grávida, mas nunca se preocuparam tanto quanto agora. Diziam pelas redondezas que, após o nascimento de sete filhas, sendo o oitavo homem, este se tornará lobisomem.
   O pavor tomou conta do casal. Mantiveram distância na cama durante meses afinco. Abstenção completa de atos reprodutivos. Pensaram até em capar senhor Onofre, para evitar qualquer eventualidade. O medo de um filho beijado pelo diabo era o único pensamento que tinham. Enquanto isso, as filhas mais velhas aproveitam as paqueras no portão de casa.
   Foram consultar o padre.
   Homem sábio, temente a Deus, ministro do Evangelho e serviçal da pequena comunidade rural, padre Tinho, como era conhecido, atendeu-os na capelinha calorosamente. Comoveu-se com a ingenuidade do casal e aconselhou-os a não se preocuparem com nada. Tirou da idéia dos dois de caparem o pobre coitado e disse a eles que mau nenhum havia em continuarem se amando em casa. Deus castiga aqueles que o afrontam. Sendo pessoas boas, maldição alguma os afligiria.
   Voltaram para casa, não completamente reconfortados, mas, com certeza, mais tranqüilos. Demoraram ainda para recomeçarem a se abraçar debaixo dos lençóis. Tinham em mente, também, que ambos só poderiam gerar filhas, moças de extrema beleza, e essa era a missão divina a eles dada. Impossível que, se por algum acaso ainda viesse nova descendência, fosse homem.
   E mais um ano inteiro se concluiu. Senhor Onofre chega em casa e a filharada brigando na sala, alguma coisa com um namorado em comum entre a primeira e a terceira filha. Ele interrompe a discussão e manda todas para o quarto, ordenando que elas aguardem para ouvirem um bom sermão e, muito provavelmente, um castigo. Cessado o tumulto, o pai da família procura sua mulher, querendo uma explicação.
   A encontra no quarto, chorando, mãos acariciando a barriga. O marido senta ao seu lado na beira da cama e a abraça.
   “Espero que seja outra mulher, meu bem”, são as palavras da esposa, entrecortadas por soluços chorosos.

O Oitavo Filho - Parte 1

   A descoberta da gravidez do primeiro filho de um casal tem como conseqüências euforia e planejamentos. A novidade da concepção de uma criança, fruto de um amor puro e singelo, geralmente traz alegria regada a choro; de felicidade, obviamente.
   Com Onofre e Maria não foi exceção. Habitantes de uma cidade minúscula, intocada pela industrialização, fundamentada principalmente no plantio de vegetais, os dois estavam em matrimônio há pouco mais de dois anos; não tardaram na geração do primeiro rebento, como era costume no século passado.
   Felizes, compartilharam a novidade com todos os vizinhos e familiares. Eram muito queridos entre todos e em poucos dias sua casa já estava empilhada de presentes infantis.
   A criança veio após Onofre trabalhar incessantemente no arado, à procura de condições seguras para sua família. Sem as bênçãos da tecnologia médica moderna, o casal só descobriu no momento do nascimento o sexo do bebê. E que linda menininha ela era! Não por ser filha deles, mas Maria tinha certeza que era a criança mais linda que já vira.
   Os dias que se seguiram foram longos e as noites mais ainda. Trabalhosa era aquela novidade, mas gratificante o labor dos cuidados maternais. E paternais também. Onofre ajudava sempre que estava em casa e mesmo de madrugada.
   E a criança cresceu feliz e saudável, uma linda mocinha invejada por todos. Mas sua realeza ímpar duraria pouco.
   Após completar dois anos, a menininha recebeu a notícia dos pais, ainda não compreendendo muito bem aquilo: ganharia um irmão, um companheiro de travessuras! Mal a primeira filha podia falar que outra já estava de malas prontas.
   E veio a segunda filha. Sim, mais um garota! Onofre duplicou o trabalho na terra. Criança única já é despesa. Com um par, quão mais!
   Passaram-se, então, três ciclos. A primogênita completava cinco anos, falante e mimada, linda de nascença, acompanhada pela irmã mais nova, igualmente linda, mas pouco menos serelepe. E nova notícia aguardava Onofre ao chegar do serviço: pela terceira vez a mulher estava grávida.
   Ora, bem sabemos que poucos empecilhos haviam para a gravidez naquela época. Não me demorarei, no entanto, para descrever as próximas cinco ocasiões de gestação seguintes. Intercaladas de um a três anos de diferença, sete filhas vieram ao mundo através de Maria. Sete lindas moças, saudáveis e expertas.
   Enquanto a última nascia, a primeira já se engraçava com os mocinhos da cidade. Onofre, agora já senhor, enfrentava dois problemas distintos: afastar os rapazes apaixonados que faziam serenata ao cair da noite no portão de sua casa e acudir a recém-nascida nas madrugadas. O primeiro o aborrecia. O segundo também.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Homem-Único e o Estranho Caso dos Observadores

O apartamento de um único cômodo, mal iluminado, encaixava-se em um dos muitos blocos ciliares à avenida. Por fora, nada mais era do que uma janela entre centenas de outras. Por dentro, exercia o papel, não de lar, mas de uma pousada momentânea, um descanso para as já pulsantes pernas que as ruas metropolitanas castigavam.
O dono do alojamento, no entanto, desconsiderava-se apenas uma adição ao número populacional. Tinha em si um ego alto e alegava, geralmente para ele mesmo, outras a um involuntário espectador, que era um ser humano distinto dos demais. Apresentava suas digitais e descrevia o conceito de não haver outra no mundo igual as suas. Convicto da individualidade, adquiriu imunidade a epidemia que alastrou pelo mundo.
Naquela manhã, diferente das demais, o convencido sujeito acordou com o silêncio súbito acometido à avenida. Seus ouvidos foram amaciados, com o tempo, pelos estrondosos ruídos veiculares de tal modo que, na presença do completo silêncio, ele despertou. Duvidoso se estaria ainda sonhando, levantou-se vagarosamente e coçou os olhos, desgrudando-os da remela que os unia. Parado, fitando o chão, aprumou os ouvidos e certificou-se de que realmente não ouvia qualquer som. Testou um bocejo, garantindo-se de que não sofria de surdez.
Inconformado de que, mesmo passados cinco minutos, ainda carro algum cortara a via, partiu para a janela. Puxou as cortinas em etapas pausadas, para aumentar a expectativa do que iria ver.
Embora ele realmente tenha dirigido primeiro sua atenção para o trânsito vazio abaixo, sua surpresa foi causada por outro detalhe. À sua frente, nas centenas de janelas fixadas nos prédios, do mais longe que sua visão pudesse alcançar tanto para a esquerda quanto para a direita, postavam-se cidadãos, imóveis, defronte suas janelas, estáticas e silenciosas. Poderiam passar por manequins se não fosse a obviedade de se tratar dos moradores dos prédios.
Associando a estranheza do cenário com a ausência de carros na movimentada avenida, o pasmo observador concluiu que todas as pessoas afligiam-se do mesmo mau, qualquer que ele fosse.
A princípio, orgulhou-se da imunidade; repassou por um momento seus discursos sobre a individualidade. Mas ele não possuía a convicção de ser diferente de todos os demais no sentido de todos os demais serem iguais, com exceção a ele. Um complexo de super-homem heroico invadiu seus pensamentos. Chamou a si mesmo de Homem-Único. Vestido de uma roupa mais elegante, que consistia em terno, gravata e sapatos, saiu do edifício disposto a encontrar uma resposta satisfatória e, possivelmente, uma solução ao problema.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O verdadeiro verão

O local era quieto e monocolor. Algum barulho de carro provinha de uma rua próxima, mas atingia meus ouvidos com fraqueza. O banco, sem conforto algum, incomodava minhas nádegas enquanto o ar seco fazia o mesmo com minhas narinas. Era um dia quente de verão e pouca coisa parecia oferecer frescor.
Foi quando aquela bela moça apareceu, com seu andar simples e cabelo volumoso. Os cachos ondulados roçavam seus ombros a cada passo, contornando o rosto suave e protegendo seus olhos de tom verde, que se destacavam como duas estrelas solitárias em um céu profundo.
Sentou-se alguns metros ao meu lado, trazendo consigo uma aura mais úmida que vencia o calor do clima, refrescando meu corpo. Diferente com minha presença, lançou-me um olhar.
As esmeraldas verdes provocaram um efeito ainda inédito para mim; o mundo alterou-se de forma gradativa e ganhou cores novas. Sob nossos pés a grama começou a crescer, irrompendo da calçada, rachando e consumindo cada pedaço de concreto. Alcançou quinze centímetros de altura, provocando cócegas em meus pés e tornozelos. Trepadeiras saltaram do chão e se enroscaram nos muros e paredes das casas que nos rodeavam. Delas nasciam flores e frutos e toda sua extensão cobriu os tons acizentados da cidade, florescendo em verdes, rosas, amarelos, vermelhos e azuis de diversas tonalidades.
Nuvens densas, mui brancas, despontaram no céu, contrastando com o azul vívido. O sol tornara-se menos incômodo, mesmo que sua luz tenha aparentado acentuar. O dia tornou-se mais dia!
Vindo junto com toda a beleza natural, uma brisa leve roçou os cabelos da moça, dando mais vida à sua silhueta. O vento suave tocou minha face também, embora eu soubesse que isso não faria minha aparência melhorar.
Neste último pensamento me ative, com preocupação. Como a bela jovem ao meu lado poderia dar atenção a alguém como eu? O que ela veria em mim? Sou o oposto do que o mundo se tornou. A minha volta era cinzenta sendo que ela trouxe a cor. Talvez minha presença somente incomodasse o cenário perfeito que a acompanhava.
Percebi que minha preocupação se extendeu além de minha mente e enraizou na grama abaixo de mim. As plantas começaram a secar e os frutos apodreciam e caíam dos muros. A trepadeira à minha frente se contorceu e voltou a se esconder no chão. Aos poucos o concreto passou a tomar de volta lugar sobre o verde.
Entendendo que era culpa minha estar fazendo o mundo apodrecer, me levantei, ciente de que estar longe daquela moça era o melhor a fazer para permitir que ela continuasse vivendo feliz, em um ambiente confortável. Seria sensato abandoná-la em vez de deturpar a natureza somente para tentar conversar com ela. Levantei, evitando fazer movimentos bruscos para que ela não notasse, e comecei a andar na direção oposta da qual havia vindo.
Quando percorri três metros, ouvi-a me chamar. Virei vagarosamente e olhei-a. Seu semblante estava triste, sua larga boca enclinava para baixo, seus olhos possuíam um brilho diferente, lacrimoso. Perguntei, timidamente, o que havia. Sua voz, de tom agudo mas baixo volume, respondeu-me:
- Não vá! Foi somente quando cheguei ao seu lado que o mundo transformou-se em belo! Veja só o que você está fazendo ao me deixar, destruindo tudo o que de bom aqui nasceu!
Meu peito se encheu de forma incontrolável. Senti que minha feição esticou um sorriso involuntário. Não pensava mais no cenário, só sabia olhar seus olhos e desejar que sorrisse novamente. Sem que eu pedisse, o mundo voltou a florir novamente. Junto a ela, sentamos novamente no banco.
Percebi, somente então, que não era o mundo que mudava, e sim nós, quando estávamos juntos.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A caçada do jovem príncipe

A comitiva acompanhava o jovem príncipe pelos campos abertos com dificuldade, esforçando-se em manter o ritmo veloz em que o alazão real corria. Ainda imaturo, olhava para trás a gabar-se da destreza de sua montaria e caçoar dos escudeiros que lhe faziam guarda.
À orla da floresta descansou, sorrindo ao contar o tempo em que os demais levavam para alcançá-lo.
- Jovem mestre, - esforçou-se por falar o mais velho dentre o grupo, entrecortando-se ofegantemente para recuperar o fôlego - inveja a seu pai na cavalgada, mas não creio fazer o mesmo na arte da caça!
- Pois abra seus olhos de águia, padrinho, pois minha caçada fará par com a onça! Verás que o filho do rei não está instruído somente nas etiquetas da corte.
Os demais juntaram-se ao jovem nas gargalhadas e até mesmo o padrinho, instrutor do príncipe, riu acanhadamente, em partes descontente com a brincadeira. Os cavaleiros puxaram flechas dos alforjes e retesaram as cordas dos arcos. Ainda rindo entre si, adentraram a floresta para a caça esportiva.
O cavalo do príncipe corria avante dos demais, hábil e valoroso, fazendo de seus movimentos entre os arbustos uma apresentação hípica. O que o montava, espirituoso no afazer, gabava-se dos cervos abatidos, das quais os criados tinham a cansativa tarefa de arrastar para longe das árvores e empilhá-los numa carroça; o jantar da noite seria honra dos cavaleiros mas, principalmente, do exímio filho do rei.
Chegada a terceira hora da tarde, quando a comitiva já estava muito distante do ponto de partida da caçada, um dos escudeiros chamou atenção a todos, informando que era hora de partirem. Deveriam ajuntar as últimas presas e levá-las, juntamente com as outras, aos cozinheiros do castelo. No entanto, o príncipe estava muito entretido, cercando uma lebre esguia que infiltrava-se entre as raízes de uma árvore; não dando ouvidos à solicitação, se afastou do grupo quando o pequeno animal encontrou espaço para correr.
O jovem e seu alazão correram em direção ao fugitivo, proporcionando um certo labor que irritou o convencido príncipe. Talvez fosse o cansaço do cavalo, que passara um dia inteiro cavalgando; talvez fosse mesmo o roedor uma caça trabalhosa. Fosse o que fosse, o rapaz ficou impaciente e, aproveitando uma deixa, atirou-se do cavalo e agarrou a pata da lebre. Esta, magra e ágil, desvencilhou-se do caçador, mas em vão, pois foi encurralada pelo início de uma colina rochosa que se erguia entre as árvores.
- Pensou que se veria livre de minha flecha, animalzinho! Por ser dificultosa, farei de ti meu prato principal esta noite, rodeada de uma saborosa salada e grelhada com extremo cuidado! Pedirei ao mestre da cozinha que te tornes o prato mais belo que suas mãos foram capazes de fazer.
A lebre, inesperadamente, postou-se sobre as patas traseiras e fechou o cenho. Gesticulou com as patinhas dianteiras histericamente e iniciou um discurso, em fala humana, repleto de desaprovações.
- Fazem de nós sua brincadeira! E querer acreditar em nossos avós, que diziam ser os homens os responsáveis por tornar esta floresta tranquila, matando e espantando as onças e águias. Antes houvessem predadores no céu e escondidos no arbusto, do que homens montados em cavalos matando-nos por esporte e lançando-nos em banquetes luxuosos à favor de sua glutonaria, profanando nossos corpinhos fracos! Que eu tivesse servido de sustento a outro animal do que agora, devorado pelos caprichos dos homens!
O rapaz, nunca antes tendo ouvido falar de uma lebre falante, arregalou os olhos e procurou por alguém próximo que tivesse presenciado o mesmo que ele. Mas estava muito longe dos demais e ficou a própria sorte por decidir o que fazer com o mamífero desolado.
- Ora, minha cara lebre! Embora instruído em muitas coisas nas dependências de meu reino, não fui informado da situação das pequenas criaturas. Desculpe minha afronta se ela feriu a ti e teus familiares, mas darei parte do caso perante os sábios do reino e mediarei um lugar seguro para os animais. Creio eu que os homens façam isso sem consciência da existência de uma alma animal, achando que vocês são desprovidos de sentimentos. Mas, sabendo do infortúnio que temos lhes causado, irei em pessoa...
- Não irá a lugar algum, humano - a lebre agora apresentava uma feição exibicionista, com as sombrancelhas erguidas e os olhos semicerrados. Estufou o peito e continuou - Hoje o banquete florestal ficará a cargo da onça que o espreita desde que entrou na floresta, mas não sem o mérito desta lebre que o atraiu à arapuca. Portanto, trate de correr, não em montarias, mas pela sua própria força, que esta onça gosta de brincar com a caça antes de jantá-la.
E antes que o príncipe pudesse digerir as últimas palavras, uma onça saltou da colina a sua frente e, dando-lhe tempo para fugir, correu atrás do jovem, atrasando em alguns passos para aproveitar melhor a caçada. A lebre riu-se durante longos minutos, quando ouviu os demais caçadores chamando pelo jovem. Ela então aprumou-se novamente nas quatro patas e correu para contar aos cervos e lebres, pássaros e lagartos, o prato principal da noite.
Quanto a comitiva, procurou até o anoitecer pelo príncipe. Já desolados, voltaram para a orla da floresta, ensaiando uma resposta ao rei. O padrinho, apesar do semblante abatido, permitiu-se, por um breve momento, pensar se o convencido afilhado finalmente recebera uma lição que pai algum, rei ou não, poderia lhe dar.
Ao chegarem no ponto de encontro, depararam-se com um segundo mistério. Os criados que carregavam os cadáveres dos animais jaziam inconscientes no chão, enquanto a carroça que levaria os corpos estava tombada e, inexplicavelmente, vazia.
Difícil seria explicar ao rei o sumiço do filho, embora a presença de inimigos na floresta fosse uma boa tentativa; contar aos demais como voltaram com a carroça vazia após um dia inteiro de caçada seria impossível.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

JANUÁRIO DA AVENIDA [3]

   Januário acendeu outro cigarro, mal acabara de terminar o anterior. A rua onde sempre era encontrado sumiu subitamente, dando lugar a um bar três décadas atrás.
   Ele se sentia jovem novamente. Seu cabelo volumoso, seus músculos mais fortes. Lembrou dos seus momentos de glória, suas conquistas! Tinha todo o tempo do mundo para desfrutar!
   O bar lhe era familiar. Alguma coisa importante acontecera naquele local anos atrás. Estar ali significava que ele deveria repetir o hercúleo fato, re-consumando suas louváveis proezas para com a sociedade.
   Levantou-se, consumindo quase meio cigarro em uma única tragada. Arrumou as calças, que não precisavam ser extremamente curtas para não caírem; estralou os dedos.
   - Sou um jovem leão à caça! Quase posso me lembrar deste momento memorável em meu passado! – Sua voz não saía mais tão rouca, problema adquirido devido aos anos de hábito tabagista. Afinal de contas, naquela época não havia passado tanto tempo desde que começara a fumar. – Sim! Era eu quand...
   Uma briga entre motoqueiros começou ao fundo. Uma garrafa atravessou o bar num vôo invejável!
   Sim, aquele bar era exatamente onde Januário, trinta e cinco anos antes, recebera uma garrafada, lhe proporcionando onze pontos na cabeça e três meses encamado.
   Momento marcante na vida deste herói civil, que nem mesmo uma segunda chance lhe privou do fatídico transtorno.

sábado, 16 de outubro de 2010

Reflexões de um doente [3]

   Sociedade era incapaz de definir por quanto tempo ficara estirado ao chão, sofrendo as dores da consumidora doença e regurgitando sangue na calçada. Desnutrido e desvairado, tremia compulsoriamente, inapto para pronunciar qualquer coisa, mesmo um pedido de ajuda.
   A Consciência, auto-proclamada antagonista, crítica e reformadora, esbravejou de súbito, iracunda. Inconformada com a decadência alcançada por Sociedade, pelo qual fora por muito tempo espectadora silenciosa, tomou posição ofensiva. Não sabia, porém, que nesta empreita haveria de encontrar o grupo Pluralismo Ideológico, facção conservadora e ímpia, habitante antigo da mente de Sociedade. Uma herança dos antepassados.
   Começaram a discutir.
   Não se tendo consciência das divisões do indivíduo, um pedestre que passasse ao lado de Sociedade o tomaria por um interno fugido do manicômio, que na abstinência dos fortes remédios passara a estender um monólogo auto-difamatório. A visão nauseante do homem sujo, doente e mentalmente perturbado afastara qualquer ser de aproximar-se dele. Enquanto a mente combatia a si mesmo, o corpo continuava a se consumir.
   A poça de sangue, cuja nascente era a boca de Sociedade, assomava sobre todo o contorno de sua cabeça. O cheiro de cadáver atraíra urubus que pairavam, vindos de longe, acima dos prédios. Seus olhos lacrimejavam, revirados e sem vida.
   Esforçando-se por levantar, agora de pálpebras fechadas e o rosto manchado por sangue seco, ele conseguiu se sentar, recostando-se na parede de um beco vazio. Após algum tempo ofegando profundamente, procurando sugar ar vital para que seu cérebro funcionasse melhor, começou a arrastar seu corpo até um canto escuro, longe do movimento da rua. Tentava ao máximo acalmar seus pensamentos. Aquietara-se.
   Fechou os olhos e limpou a mente. Viu-se naquele estado de iniciação à putrefação. Horrorizou-se ao notar em que ponto da desgraça humana chegara. A esquizofrenia o deixara por alguns instantes e, tomando por sábio, aproveitou este momento para infundir uma linha de raciocínio saudável.
   Era hora de decidir os preceitos certos para que Sociedade progredisse do seu estado decadente.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

JANUÁRIO DA AVENIDA [2]

   Januário, psicologicamente alheio ao calor, trajava sua típica jaqueta de couro gasto sobre a camisa amarelada, da qual fisicamente lhe outorgavam suor em excesso. O cigarro, anexo inseparável de seu corpo, consumia-se ao fim, como numa corrida em direção ao filtro. Suas rugas cresceram paralelas ao longo sorriso. Seu semblante velho tingiu-se de ironia.
   - Um velho na minha idade só pensa em duas coisas.
   Arremessou a bituca do cigarro na calçada empoeirada e expeliu, pela tosse, mais um pedaço do pulmão. Com o dorso da mão, limpou a saliva que escorria no canto da boca. Esfregou a mão na calça enquanto endireitava a coluna. Falava pela linguagem sonora e pelas gesticulações das mãos, costume adquirido nos antigos discursos de rua, quando esbravejava e erguia as mãos para ser compreendido.
   - Juventude e política. Ao contrário do que dizem, não pensamos em morte.
   Apunhalou o peito e limpou a garganta. Seus olhos, fundos e escuros, brilharam em malícia recém parida. Centenas de fatos lhe voltaram a mente, trazendo-lhe inveja pelo eu que já fora e o homem que poderia ter sido.
   - Já embati de frente com a morte muitas vezes para encará-la com medo agora. Quando moço, enfrentei milícias e lutei por este país!
   Seu semblante tornou-se novamente reflexivo e distante. A tonalidade bege de sua pele, em composição com o cabelo seboso, permitia ver nele o desgaste de um senhor despreocupado com sua higiene. Os dedos da mão esquerda cerraram-se enquanto os da direita pressionavam a calça na altura do joelho. Memórias complexas vinham-lhe à mente. Pretensões que ele, mesmo agora, procurava entender, sem êxito.
   - Queríamos restaurar a democracia. Mesmo hoje, acho política coisa difícil.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Tempestade Noturna

   A cidade adormecera. Poucas casas ainda insistiam em deixar alguma luz acesa naquela noite de domingo. Talvez pela ressaca do fim de semana, talvez pelo descanso pré-segunda-feira, talvez pelos dois; Indaiatuba permanecia em silêncio, escura e úmida.
   A torrencial chuva de verão passara deixando um rastro molhado no asfalto. As nuvens negras, embora tranqüilas sob minha cabeça, escondiam o luar e o brilho das estrelas, acentuando ainda mais a mortandade em que a cidade se encontrava.
   No horizonte, porém, Deus ainda mostrava seu poderio pela natureza. Trovões rolavam pelos céus e raios cortavam o ar. Apesar da distância ocultar seu som tenebroso, a tempestade insistia em iluminar as colinas distantes com violência.
   Brilhando incessantemente, a eletricidade apunhalava terra e céu, permitindo que este espectador distante visse, ainda que por silhuetas, como sombras projetadas por luzes repentinas, as montanhas e nuvens que ficam ocultas e uniformes no cair da noite.
   Tenebroso e magnífico era a visão da glória, científica e bíblica, pela qual as trovoadas se apresentavam.
   Amostra de poder divino ou lição de física prática, aquilo me assustara. O impasse de permanecer apreciando cenário tão majestoso ou me encolher protegido em minha cama assomou em minha mente.
   Seria realmente um teto de concreto produzido por mãos humanas capaz de me proteger do poder de uma tempestade?
   Provavelmente não, mas nada parecia mais certo que isso naquele momento: entrar em casa, encolher-me sob a coberta e fixar em minha mente de que ali nada me aconteceria. Pelo menos não depois que o sono levasse todo o temor embora.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

JANUÁRIO DA AVENIDA

    Os cabelos grisalhos de Januário caíam-lhe sobre os ombros. A franja colava-se com o suor em sua testa, desviando-se dos olhos e apontando as bochechas. As rugas contornavam-lhe a boca e os olhos, estas duas pequenas janelas de seu rosto, demonstravam um pensador desgastado que há muito trabalhava. Sua boca, larga, mas de pouca carne e muita pele, dificultava-se em manter firme o forte cigarro pendido. A jaqueta de couro gasto preta amarrotava-se por cima da camisa social de pano fino antes branco, agora amarelado. A calça jeans empoeirada colava em suas pernas acentuando seu físico magro e velho; pareciam não agüentar mantê-lo em pé.
   Sentado na calçada da movimentada avenida, encostado na parede, iniciou o diálogo. Sua voz, pausada pelas tragadas e tosses, escorregava calma e rouca sem pressa alguma, contrastando com o movimento da metrópole. Januário se adequaria mais a um asilo do interior. Seus olhos movimentavam-se, discretamente, ante ao movimento dos pedestres. Era calmo, porém desconfiado.
   - Bons tempos eram quando as cadeiras podiam ser colocadas em frente ao portão de casa.
   Segurou o cigarro entre o dedo indicador e médio da mão direita para tossir secamente. Pigarreou.
   - Nada de perguntas quanto aos amigos das crianças; as ruas eram livres para brincarem com quem quisessem!
   Esperou um jovem de roupas chamativas e cabelos pintados passar em sua frente. Olhou desconfiado, aguardou o tempo que julgara seguro e comentou em baixo tom:
   - Nem sequer sabíamos o que era um bicha.
   Ouviu a pergunta e respondeu com muito mais coragem do que a afirmação anterior. Seu tom de voz aumentou, apesar de permanecer calmo.
   - Se tenho medo de dizer isso? É claro que não! Ajudei a construir essa cidade meu jovem! Sou sim conservador – seu pulmão parece ter expelido um pedaço de si próprio, continuou – e não me refreio quanto aos meus princípios! Se me aparecesse algum moleque maloqueiro sem respeit...
   Um grupo de rapazes com cabelos espetados fazia barulho logo adiante. Acabaram de sair de um bar, mesmo sem terem idade para comprarem álcool, e possuíam o ego-momentâneo tão alto quanto os prédios à sua volta.
   Januário fixou o olhar novamente. Parecia mais compreensivo.
   - O que você queria com este velho acabado mesmo?

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Reflexões de um doente [2]

   A pluralidade ideológica formalizada na pessoa de Sociedade sobressaltou-se sobre a caracterização física do indivíduo; doentio e simples; pérfido e laborioso. Sob seus olhos meigos e sofridos ocultava-se uma mente gananciosa, pronta para saborear as primícias da avareza. Porém, sobre os músculos robustos, havia um coração humilde que o impulsionava a abraçar um necessitado, mesmo aquele que em nada lhe devia.
   Sua feição indígena tentava trair sua origem européia; em outras ocasiões, sua prepotência européia ridicularizava sua sabedoria indígena. A miscigenação de seus pais e avós causara-lhe, anos depois, um conflito de identidades. O dualismo (no caso, o poliralismo ou pluralismo) mental agravara as demais doenças internas de seu corpo. Sem a sincronia correta da governança cerebral, as células corpóreas não podiam mais atender as necessidades naturais. Logo, a doença putrefata se espalhou pelos órgãos. Sociedade gemia constantemente procurando por uma cura que somente ele mesmo poderia lhe dar.
   Nesses momentos de agonia, atirado na sarjeta e danificando suas vestes, Sociedade passava a clamar pelos demais senhores e senhoras que por ele passavam, gritando por remédio ou qualquer tipo de ajuda. A presença de oportunistas, que dele trocaram pertences por conselhos falsos ou ajuda em dívidas, acarretou-lhe maior miséria. O pouco que lhe restara colocou de baixo dos braços e esbravejou sua posse. Gritava e gritava e todos o taxavam de louco, embora a segurança de seus utensílios tivesse sido um dos grandes atos em sanidade que praticara.
   A doença atingira parte de seu coração e começara a corroê-lo. Dor lenta, maligna e silenciosa, martírio em agravante. Sua própria loucura o matava.
   Sociedade necessitava mudar a si mesmo para sarar.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Reflexões de um doente

   Sentado no meio-fio, com a feição tesa e o punho rígido apoiando a cabeça, o cotovelo anexo ao joelho como um membro só. O homem refletia aferradamente sobre si mesmo, procurando dentro dos mais distintos órgãos internos a solução de seus problemas. A disparidade crescente de suas filosofias criou pólos distintos de um mesmo “eu”, semi-esquizofrênico, certamente conflituoso.
   A auto-análise, neste caso, trazia ainda mais incoerência às suas perguntas e distância às suas respostas. O meio-fio incomodava-lhe o traseiro, mas levantar era uma cogitação defeituosa que acarretaria mais atraso nas reflexões internas. Penosa era a decisão, optava por permanecer imóvel.
   Durara muito tempo desde que se sentara ali. A ausência de percepção temporal lhe prejudicara muitas vezes; o passado próximo lhe era apagado e poucas eram às vezes em que recordava seus erros. A uma conclusão concreta chegou: perdera a identidade jazia muito.
   Quando muito, folgava a expressão e observava os objetos que levara consigo (para onde?, perguntou-se poucas vezes). À margem do erro, negociava seus pertences. Sentiu-se aturdido quando sua consciência criticou-o por trocas injustas. Ela esbravejava ofensas, que eram de certa forma a si mesma, ou seja, a ele, e gritava-lhe o nome para que ele recobra-se seus sentidos.
   Freqüentemente esquecia quem era, embora tenha trajado tipicamente para nunca esquecer.
   Chamavam-no Sociedade. Vestia verde e amarelo.